A última sessão com Freud e C.S Lewis.

Un nuit l’française en Brèsil.

Teatro Maison de France - Centro (Foto: Rafael Junqueira/Mundo Pauta)
Teatro Maison de France – Centro (Foto: Rafael Junqueira/Mundo Pauta)

Costumam dizer que as noites francesas são românticas temperadas com o bom humor festeiros deste país. Em questão a esta vista acima da Avenida Presidente Antônio Carlos ás 21:20 após assistir a uma peça comédia e drama na Casa da França (Maison de France) localizado no prédio do Consulado Geral da França.

“Belle nuit, le nuit est  une enfant”

O belo lugar, um branco mais puro que os olhos podem vislumbrar. Falar da França não é apenas um texto jornalístico, e sim uma prosa. Assim descrevo os ambientes internos do Consulado. Fui assistir a peça “Freud – A última sessão” com Hélio Ribeiro e Leonardo Netto nos papéis de C.S Lewis autor das crônicas de Nárnia e Sigmund Freud o psicanalista dentro do tema central – “Deus em questão.” (um slide de 52 páginas). A luta ferrenha e resistente de ambos na tentativa de um convencer o outro de sua crença.

A ciência ou a religião. A conclusão da peça nos dá um verdadeiro ensinamento, e o processo que o ator Hélio Ribeiro escolhe ao sentar enquanto uma música típica dos anos 40 toca no rádio enquanto a luz vai se apagando. O verdadeiro ponto de finalização – “Guerra ou paz de espírito?“.

A atuação de ambos os atores nos colocam dentro de uma atmosfera de caos, de guerra, conflito pessoal, arrogância, medos, arrependimentos, perda de fé, redescobrimento pessoal. A peça é literalmente uma análise, você se senta na platéia se sentindo no divã. Houve momentos de humor, momentos em que os personagens marcantes antes nos apresentado como os ilustres autores, mas depois vemos suas fragilidades, e como são tão humanos.

A frase – “Freud explica” torna-se meramente banal, e igualmente sem sentido. Vemos a presença humana dos atores, nos personagens. Vemos os anos 40, a crise, a guerra, Hitler, Deus e o ateísmo. A peça nos passa o desespero do homem procurando no que acreditar, e como acreditar. Vemos a dor concretizada pela doença de Freud sendo sentida pela sua resistência as mudanças. Os pensadores transcendentais irão se deliciar com esta obra de Ticiana Studart.

E claro que as piadas mal feitas de Freud é tão comicamente abordadas, o que desperta a gargalhada da platéia em ouvir uma anedota sem sabor, e ver Hélio Ribeiro rir sem qualquer graça da piada, é totalmente contagiante. Dou palmas aos dois atores que souberam como fazer o melhor teatro que esta cidade já presenciou, talvez logo mais, em seus tempos modestamente dourados.

Freud aceitaria o Kama Sutra como uma catarse funcional?

(Frase criada por mim e ganho o concurso cultural – Globo Teatro)

Teatro Maison de France - Centro (Foto: Rafael Junqueira/Mundo Pauta)
Teatro Maison de France – Centro (Foto: Rafael Junqueira/Mundo Pauta)

Notei cada detalhe do Teatro, e o achei igualmente maravilhoso. As duas hastes externas suportam duas bandeiras, a do lado esquerdo “Francesa” e a do lado direito “Comunidade econômica Européia“. Ao entrarmos damos de cara com uma recepção simples. Apenas dois lados de escadaria levando para o Piso 2 e o subterrâneo.

O piso branco, mais branco que possa imaginar. Havia lido algo a respeito. Inclusive citações bem humoradas – que podiam se sentar com a roupa mais branca no chão que não levantaria um dedo de pó. A verdade foi dita, e confirmada. Os banheiros são detalhados, as piadas dispostas sobre três bastões lembrando uma grelha de churrasco. Abaixo há um pequeno canteiro de pedras brancas. E o banheiro mais limpo que qualquer outro que tenha entrado.

Uma sala de espera uma espécie de bombonière com comes e bebes populares. Um arranjo de escada, colunas cilíndricas e luzes spot no teto. Fazendo uma formação com os contornos da estrutura. As portadas duplas de entrada elevam-se por uma escadaria que dá para o interior do teatro, uma visão clara e confortável.

Bem estruturado, podemos notar acima de nossas cabeças um projetor Data Show e um quadro retrátil que desce após as três campainhas. Um vídeo institucional citando as regras de segurança, a posição de cada extintor, saída, regras de produção e os anúncios. Timidamente o rolo do projeto desce e também sobe do mesmo jeito. As luzes se apagam moderadamente.

E uma voz claramente de um francês falando em nosso idioma, nos informa sobre cada aspecto, as regras são novamente citadas e nos felicita para exibição do espetáculo – a famosa palavra “Merci” é pronunciada. Um Teatro influenciado por raízes francesas, localizado no Consulado Francês, não poderia e seria altamente pecaminoso que não fosse dito uma frase em francês.

PSA Peugeot Citroën o grupo de produção de carros é apenas uma dos sinais de um “Temps france“.  Magicamente o espetáculo começa com citações de Tolkien, C.S Lewis, Freud. Sexo é citado – sim. E de uma forma bem humorada, o sexo é parte da conclusão. Embora não seja citado na maior parte da peça com este nome, é ilustrado a todo momento. Belíssima obra.

Anos 40…clima noir…dia fatídico…Ana…Geoffrey…Pour quoi?

Teatro Maison de France - Centro (Foto: Rafael Junqueira/Mundo Pauta)
Teatro Maison de France – Centro (Foto: Rafael Junqueira/Mundo Pauta)
Teatro Maison de France - Centro (Foto: Rafael Junqueira/Mundo Pauta)
Teatro Maison de France – Centro (Foto: Rafael Junqueira/Mundo Pauta)

A atmosfera dos anos 40 é um dos pontos mais fortes da trama. O técnico de cenário, figurino e sonoplastia foram mestres em recriar uma cena que nos remete a um tempo que vemos e lemos em contos. E ele está ali diante de nós.A mesma esfera é contemplada pela platéia durante todo o espetáculo.

Ele comece como termina, Freud sentado na cadeira. Mas tudo, tudo ao redor muda completamente. Vivemos a tensão de uma guerra, vivemos os sofrimentos de Freud e C.S. Lewis. Imaginamos que é Ana (filha de Freud), imaginamos como é Geoffrey (cachorro de Freud) apesar de serem personagens off. É uma história envolvente. Não é apenas um drama, é uma comédia que usa do humor os pontos de uma crise tão intensa.

Mostrando além da crise real da guerra, o conflito da crença, a base da peça. A dupla ficará no teatro Maison de France até 05/05.

Maiores informações – consultem o site oficial do teatro. (A informação da data acima, foi informada pelos atores)

Mundo Pauta.

Reportagem/Texto/Fotos: Rafael Junqueira

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