Um colégio escrito na história brasileira.

O centenário Colégio Militar do Rio de Janeiro faz parte da história do Brasil como o próprio país se fez descoberto por um português chamado Pedro Álvares Cabral. Que tinha convicção de achar o caminho para índias ocidentais a procura de especiárias, rotas comerciais e terras a que pudesse colonizar. Ao avistar as terras, e um litoral povoado por uma densa floresta, não imaginaria que 389 anos depois seria criado o primeiro e grandioso colégio militar, a casa de Thomaz Coelho.

Portão principal do Colégio Militar (Foto: Rafael Junqueira/Mundo Pauta)
Portão principal do Colégio Militar (Foto: Rafael Junqueira/Mundo Pauta)

A cultura televisiva e dramática também contou com a influência, que então escola para filhos de militares mortos da guerra do Paraguai, e posterior filhos que preenchem-se o requisito de terem pais militares, e aberto a vagas para candidatos por admissão de filhos de pais civis, com a mini-série “Anos Dourados” de 1986 de Gilberto Braga que levava consigo os papéis principais, Malu Mader e Felipe Camargo.

Felipe Camargo (Marcos) faz um aluno do colégio militar que conhece a personagem de Malu Mader (Lurdinha), uma normalista, que fez parte da história comum dos alunos destas instituições. Era comum cadetes da escola namorarem normalistas mesmo. A música tema da mini-série toca os nostalgistas a primeira lírica – “Parece que dizes/Te amo, Maria/Na fotografia/Estamos felizes/Te ligo afobada/E deixo confissões no gravador“.

Música composta por Tom Jobim e cantada por Maria Bethania.

Secretaria escolar - CMRJ (Foto: Rafael Junqueira/Mundo Pauta)
Secretaria escolar – CMRJ (Foto: Rafael Junqueira/Mundo Pauta)

Outras produções que utilizaram da simbologia, locação e passagem histórica do colégio. Foi Olga (este me lembro que a produção do filme estava contratando aluno para ser figurante), o auditório utilizado pelo filme era o próprio do colégio militar.

De Passagem trata da vida de Jefferson, um aluno de colégio militar que infelizmente tem a perda de seu irmão Washington para as drogas. Mas tudo se complica, porque o corpo está sumido e ele acaba se lembrando de suas vidas juntos.

O auditório novamente é palco utilizado no filme de comédia romântica de Selton Mello e Débora Falabella, Lisbela e o Prisioneiro.

Embora não tenha tomado parte da arma de Cavalaria, e sim de Infantaria, a arma em questão era a mais unida e festiva do colégio. Apenas tendo seus brados e círculo no centro de hipismo para os novos integrantes, de forma única.

Tradição garance.

Todo aluno que faz parte do corpo do colégio aprende que a mente precisa improvisar o tempo inteiro. Talvez ser militar seja bastante diferente do que um cadete seja, mas nenhum outro colégio se comporta da mesma forma. Era tão comum ouvir dos sargentos que ‘meia dúzia era formada por 3 ou 4″, “que o solo estava mais quente naquele dia” e “e que dor e cansaço eram psicológicos”.

Ginásio do Colégio Militar (Foto: Rafael Junqueira/Mundo Pauta)
Ginásio do Colégio Militar (Foto: Rafael Junqueira/Mundo Pauta)

Não havia justificativa para nada, mesmo que fosse exigido alguma. O colégio já assumia que o aluno havia faltado, então era comum dizermos – “tira a minha falta”. Aluno que comete-se algum erro não era apenas enviado para a casa com uma anotação aos pais, e ele punido e privado do final de semana conforme a gravidade de sua transgressão. Tudo para ensina-lo que “ações tem reações”.

Assumíamos posições de liderança e comando de nossa própria turma. Com a responsabilidade de mante-la sob a quietude dos afazeres, deslocamento pelo pátio, apresentação aos professores e responder ao comando perante qualquer ação durante o período de uma semana seguindo a ordem alfabética.

Alunos eram premiados por suas dedicações aos estudos, a música e ao esporte. Quando atingiam os requisitos básicos, eram condecorados com medalhas, graduações e alamares. O zelo pela música era tão considerado importante, que o tempo de serviço em um instrumento era considerado dedicação e esforço. Os esportistas eram agraciados com notas adicionais no boletim e beneficiados em atividades escolares conforme é tradição em escolas americanas.

As provas não são apenas avaliações, são imediatas e surpresas para testar a habilidade do aluno em absorver conteúdo no mínimo de tempo e lidar com situações inesperadas. Não existe pontos, lá se chama escores. Não existe agasalho e sim abrigo, não existe chapéu e sim boina.

Povoado de solos arenosos e cercados por florestas e exemplares de pau-brasil nas proximidades da praça principal, os alunos viviam sofrendo com sapatos, culotes e coturnos sujos e necessitando mantê-los limpos, tais como as fivelas espelhando. Cabelos presos em coque em dias de festividade para as meninas, cortados e barbas feitas aos meninos.

Castelo na seção de educação física (Foto: Rafael Junqueira/Mundo Pauta)
Castelo na seção de educação física (Foto: Rafael Junqueira/Mundo Pauta)

A denominação certa para uma turma é “guarnição formado por segmento masculino e feminino”. Não existe “até amanhã” é “Fora de forma – marche”. Não há esquina que houve-se um aluno sem estar sem sentido e prestando continência para o que fosse. Não havia “você” era “Sim senhor ou senhora”. Caso estivesse errado era melhor dar meia volta volver ou pensar em corredor acelerado.

Aluno de CM não pensa como aluno de escola comum. Ele aprende a ser mais, e pensa em situações inesperadas e se baseia em tudo que pode utilizar em campo.  O verdadeiro sentido “Pede para sair” era ouvido silenciosamente nas primeiras semanas de adaptação.

Alunos de 11 anos ou 15 anos (idade de ingresso) passavam por uma semana de adaptação aos métodos e vivências do colégio. Uniformes, comportamentos, punições, áreas acessíveis e proibitivas. Hierarquias. A frase lema era “Brasil acima de tudo e abaixo de Deus” – Aqui estão apenas os melhores. A frase que figurava no comando da Infantaria era – “Os melhores são apenas bons para infantaria” – Selva.

Curiosidade.

  • Hoax da internet – “Dilma quer acabar com os CMs do Brasil.”

A natureza do texto e seu fundamento cai em desgraça quando se tenta pesquisar quem e quando falou isso. A primeira presepada que a Dilma poderia realmente causar seria em destruir uma rede 12 colégios militares por todo o Brasil para instituir o quê? Uma falácia educacional? Existem inúmeras instituições de grande renome no país que fazem os líderes de hoje serem substituídos por outros amanhã. É certo que existe uma conspiração que diz a verdade – “País de ignorante é um país fácil de manipular”. Brasil é um país longe de ser ignorante, como se escola fosse necessária para tirar a ‘impureza intelectual’.

O verdadeiro ignorante é aquele que sabe, mas ignora.Não aquele que detém dificuldade em aprendizado, mas em outrora tem a faculdade de aprender e o fará. É mentira essa da Dilma? É. CM são colégios tradicionais e quem mantém o alto padrão de qualidade dentro e fora do país. Ilustres nomes passaram pela casa, e não será agora que serão motivos de extinção.

Artigos para estender o assunto.

Curta Mundo Pauta | Siga @Mundo_Pauta | Comente Flickr_Mundo Pauta |Compartilhe Pinterest

Anúncios