Turismo Carioca para os cariocas, iniciativa da Estácio ensina a história do bairro.

Na segunda edição, o evento itinerante chamado ‘Rolé Carioca’ é parte de um projeto do curso de história da Universidade Estácio. O projeto trata-se de dar uma aula gratuita dinâmica por um trajeto devidamente planejado com direito a encarte e materiais promocionais para os moradores do bairro e visitantes. Mundo Pauta conta esta experiência que marcou este domingo (19), partindo da Rua Barão de Mesquita com o ponto final na Igreja São Francisco Xavier.

Projeto Rolé Carioca - Universidade Estácio (Foto: Rafael Junqueira / Mundo Pauta)
Projeto Rolé Carioca – Universidade Estácio (Foto: Rafael Junqueira / Mundo Pauta)

Durante este domingo (19), primeiro dia do horário de verão, com uma distância de uma semana da eleição de segundo turno, um evento pra lá de carioca invade o bairro da Tijuca, em sua segunda edição, o projeto que foi criado a partir do curso de história da Universidade Estácio, realizado pela agência de publicidade e consultoria M’Baraka e patrocinado pela Prefeitura do Rio, contou com uma participação enorme e durou duas horas e meia. A Tijuca não será mais a mesma depois dessa, com o Rolé Carioca.

Pontualmente o Mundo Pauta firmou presença ás 9:00 na frente do McDonalds na Rua Barão de Mesquita, e lá estava uma tenda do Rolé Carioca montada, bem próximo ao Biker Itaú. E um amontoado de visitantes de outros bairros e moradores da Tijuca, procurando uma sombra na quase ‘pelada’ rua que nos encontrávamos. A espera por um passeio que mais parecia uma visita turística a um país estrangeiro. Alguns trajando roupas típicas de trilhas, mochilas, e outros munidos de câmeras profissionais para registrar qualquer espécime desconhecido.

Fomos saudados por professores muito entusiasmados, me lembrou aqueles passeios de escola. Aprender história sempre deveria ser assim. Melhor, aprender qualquer coisa deveria ser ao ar livre. Tocar, interagir, sentir, foi a proposta do projeto. O resultado foi magnífico. Mas antes vamos contar a história da história do Rolé Carioca. Quando foi 9:30, o primeiro grupo desgarrou e foi em direção ao Bobs, mais precisamente até a porta da Galeria Azul no Tijuca Off-Shopping.

Breve introdução da origem do nome Tijuca, oriundo dos manguezais, dado pelos índios como água suja ou podre. E aqui ficavam os jesuítas. A Tijuca, por ora, fica num vale. Cercado de quatro grandes morros. Em 1500, Tijuca era uma zona Sul. Era povoado por ricos, por aristocratas, enquanto a zona sul atual era habitado por pobres, doentes, indesejados. Toda colonização começava do alto e ia descendo até a costa. E foi interessante saber que onde fica as favelas, era onde os condes viviam, e onde agora há casarões e mansões, eram as favelas nos séculos passados.

Professores William e Cátia da Estácio falando sobre a história da Tijuca (Foto: Rafael Junqueira / Mundo Pauta)
Professores William e Cátia da Estácio falando sobre a história da Tijuca (Foto: Rafael Junqueira / Mundo Pauta)

Seguimos em direção praça Lamartine Babo, fica próximo a polícia do exército cercado pela Avenida Maracanã. Paramos mais uma vez nas poucas sombras que o lugar reservava, o calor era igual ao Saara. Mas não desanimou a ninguém. Estávamos fritos fortes e firmes. Lá aprendemos a importância daquele quartel, e o que ele foi durante a ditadura militar. Também ouvimos falar da guerra justa, lembro que na escola, levei uma série inteira para entender melhor essa história. Mas bastava dizer que se uma tribo indígena não aceita-se a catequese, podia abrir fogo contra o inimigo.

Fomos ali também que falamos sobre a lagoa da Tijuca, que na verdade não fica na Tijuca, e sim no vizinho. Alguém sabe o que significa “Barra da Tijuca”? É justamente esses afluentes que passam, fazendo essa ‘separação’, chamando assim de “Barra” da Tijuca, fora isso, seria chamado de Tijuca. Dali seguimos adiante até o final da Barão de Mesquita entrando pela Antônio Basílio ate´a Rua Itaguaí. Foi engraçado, porque ao entrarmos por ela, assunto era a dita, mas acabaram falando no Tijuca Tênis Clube.

Grupo acampado enquanto escuta a história da Tijuca na Praça Lamartine Babo (Foto: Rafael Junqueira / Mundo Pauta)
Grupo acampado enquanto escuta a história da Tijuca na Praça Lamartine Babo (Foto: Rafael Junqueira / Mundo Pauta)

As histórias do Tijuca Tênis Clube foi bastante interessante, inclusive o porque na questão de mercado, eles não são tão atraentes como antigamente. Todo bairro carrega um Clube, sempre trazendo uma alusão ao nome, caracterizando-se como um time. Era vip ser sócio. Mas de uns tempos para cá, muitos desses Clubes que mantinham as portas cerradas para os não sócios, tem aberto a porta ao público, inclusive, pela desvalorização do termo clube.

Os atuais condomínios já trazem em seus domínios quadras, piscinas, salas de recreação, andares de ginásticas. Dispensando completamente a utilidades dos clubes que eram as taças de ouro em reuniões de amigos e familiares. Dali partimos para famosa praça que carrega o nome de um presidente Argentino, Saens Peña.

Todo mundo ouve ou lê sobre a fábrica de Chita, mas descobrimos que a fábrica não produzia nada, e que na verdade era uma estamparia. Os produtos vinham prontos de outros estados. Tijuca era uma imensa chácara, conhecida como os engenhos, famosa por seus senhores e escravos. Um bairro acrescido de areia, pastagem por todos os lados, muito diferente do que conhecemos atualmente. E a explicação de que a Tijuca é o engenho velho, para explicar o nome do Engenho novo. Apenas por questão de antiguidade das localidades.

O momento mais mágico, para o cinéfilo aqui, foi falar sobre os cinemas da época. Justamente quando o grupo Kinoplex e o centro comercial Shopping Tijuca na mesma semana inaugurou uma exposição dos cem anos do cinema, com fotos raras do Cinema Carioca, América, Olinda (maior cinema da América Latina, atual Shopping 45, primeiro shopping da Tijuca) , Odeon (Conhecido por preços populares), quase falei em voltar alta ao falar “Segunda cinelândia” também. Não sou do tempo da onça, mas peguei vários cinemas ao redor da praça. Chegamos a visitar o antigo Cinema Carioca, que ainda conserva a escadaria, na verdade, toda a arquitetura do cinema antigo. Ao contrário da farmácia Pacheco que ‘desativou’ por completo a lembrança de qualquer cinema ali.

Falamos sobre o café palheta que ‘oficialmente’ não existe mais, mas que é um patrimônio histórico do bairro, a Venâncio conserva-o até hoje. Alguém se lembra da Praça cercada pela aquela grade verde? Agora ela está muito melhor, fiquei surpreso quando os professores falaram que antes da instalação do metrô, em 1982, a praça era muito mais verde. E olha que está bastante arborizada agora. Devia ser uma mini-floresta da Tijuca. Confesso que a Cmd Xavier de Brito é mil vezes ‘selva’ do que ela.

Antes de seguirmos para a Igreja Santo Afonso, houve uma definição de cinema de começo de século, sua diferença era que filmes não era de fato uma realidade, o que se passava nas telas eram reconstituição de casos grotescos, como crimes. E também outro fato curioso, era que os cinemas no passado (além de não ter lugar marcado), também só cobrava a entrada, uma vez lá dentro, a pessoa podia ver quantos filmes quisesse, era um prejuízo no final das contas.

Fachada principal e fronta da Igreja Santo Afonso (Foto: Rafael Junqueira /Mundo Pauta)
Fachada principal e fronta da Igreja Santo Afonso (Foto: Rafael Junqueira /Mundo Pauta)

Passamos pela Rua das Flores, que oficialmente em decreto, ainda é Major Ávila. Ela foi criada em 1998, trazendo mais harmonia e flora para o bairro. Antes dela, a ‘travessa’ era amontoada de mendigos. Era sofrível passar ali. Em compensação era o corredor ladeado por cartazes de filmes, quando os cinemas ainda eram existentes. Era ali do lado, que quando a sessão acabava, todos saíam em direção a Barão de Mesquita ou a Conde de Bonfim.

Cortamos a rua que leva o mesmo nome da Igreja, Santo Afonso. Pegamos a missa de domingo, completamente lotada. De portas abertas. Ficamos uns 15 segundos, enquanto sob aquele sol de derreter, alguns iam buscar água na lanchonete do lado externo. Neste ano, o pátio principal da Igreja sofreu uma reforma, e aumento do estacionamento. Antes o chão estava rachado e desgastado. Depois foram instalados bancos de pedra, formações e desenhos ao chão, típicas de praças. E um altar ao lado da lanchonete.

Lado interno da Igreja Santo Afonso - Durante a missa (Foto: Rafael Junqueira / Mundo Pauta)
Lado interno da Igreja Santo Afonso – Durante a missa (Foto: Rafael Junqueira / Mundo Pauta)

Dali saímos com as energias renovadas e hidratados e fomos em direção ao imperial Colégio Militar do Rio de Janeiro. Mas a história não ficou somente nele não. Conhecemos a história do Instituto de educação, do D. Pedro II, do colégio Sion, São José, São Bento. Do Colégio Militar conhecia muito bem, sete anos de casa. De cabo a rabo não seria difícil. De 1989 ao centenário, o ingresso da primeira turma de meninas, em 1995 a formatura das pioneiras. Em 1996 o lançamento do primeiro site.

Colégio referência? Muito bom. Ficamos ao lado do colégio sabendo e descobrindo as intrigas do CMRJ com o São José, da ousadia do alunos do CMRJ com as alunas do D. Pedro II, das normalistas e os grandes bailes de gala. A história sempre reserva segredos únicos. Até os que nunca são achados em livros oficiais.

Capela do Colégio Militar do Rio de Janeiro (Foto: Rafael Junqueira / Mundo Pauta)
Capela do Colégio Militar do Rio de Janeiro (Foto: Rafael Junqueira / Mundo Pauta)

Pena que durante o trajeto não foram ditos mais sobre o centenário colégio. E ele realmente mudou ali uma história que a Tijuca desconhece. De Carlos Prestes, de novelas a Anos Dourados, guerra do Paraguai, até o patrono Duque de Caxias que aos 18 anos era o mais jovem general, em 1808 quando o primeiro exército de forma oficial se formava, antes disso eram grupos que lutavam pela causa e defesa, e depois era desarticulado. Onde os filhos dos militares mortos iriam estudar? Quem estudou por lá, sabe que havia uma cia de bicicletas, mas isso no tempo que se amarrava cachorro com linguiça.

Somente uma vez entrei nesta capela. E nem sabia, mas apenas quando já estava fora do colégio, é que ela podia realizar casamentos. E o colégio D. Pedro II próximo ao Ristorante Da Vinci? Alguém chuta a data que ele foi fundado? Em 1959. E dali seguia a reta final do passeio, o último ponto era a Igreja São Francisco Xavier. Mas não antes de passarmos pelo Clube Monte Sinai. É interessante, porque além de uma concentração de estrangeiros no bairro, o segundo bairro do Rio de Janeiro com mais judeus, é a Tijuca. O primeiro é Copacabana.

Igreja São Francisco Xavier - Final do percurso (Foto: Rafael Junqueira /Mundo Pauta)
Igreja São Francisco Xavier – Final do percurso (Foto: Rafael Junqueira /Mundo Pauta)

Na Igreja São Francisco Xavier, que infelizmente estava fechada quando fomo visita-la, mas não percam numa incursão futura do Mundo Pauta aqui mesmo, fomos brindados pelos sinos de 12:00. Apesar do calor e da longa caminhada, deu uma sensação de, missão cumprida. E soubemos um pouco da história da Igreja, uma é que ela não é a mesma que foi construída em 1917. Passou por uma reformulação completa, mas não diferencia muito do modelo atual. Apenas que os detalhes clássicos da época não figuram mais.

Também outro lugar, e tão conhecido, que não é ‘natural’, é a floresta da Tijuca. Foram plantados espécimes de outros países, reflorestado e por si só acampado. Antes ali era uma plantação que cobria tudo, de Café. O passeio foi único. E demonstrou que um bairro pode esconder muita história é pelo ditado modificado – “Tijucanos vemos, todas as histórias não sabemos”.

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